Lembro de um diretor de cinema que estava gravando um filme de terror. Numa das cenas apareceriam uma multidão de baratas. Pensei que finalmente teríamos alguma projeção, ainda que num filme B. Depois foi divulgado que estava pagando um dólar por barata morta. Morta! Lembro que naqueles dias andávamos com medo. Houve uma perseguição por baratas como nunca. As baratas tinham que estar inteira, então as pessoas usavam todos os tipos de armadilha e veneno. Verdadeiro massacre. Passei por isso. Um tio meu foi capturado numa daquelas armadilhas que pareciam lugares aconchegantes. Um primo morreu asfixiado com detefon. A maldade humana é inacreditável e tudo isso por causa de um dólar. Dias difíceis aqueles.
Memórias de uma Barata Octogenária
Crônicas de uma Barata Literária
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Rivotril
Sobrevivi ao straik gel. Minha irmã, não.
Aprendi desde cedo a identificá-lo. Claro que foi após a morte de minha mana.
Distancio-me daquelas baratas que voltam de uma noitada com as antenas embaraçadas, jamais me relacionei com essas.
Sou viciada em Rivotril. Certa vez vi um comprimido em migalhas numa mesa e provei. Nunca mais larguei o danado.
Tem gente que experimenta veneno e não morre por milagre, mas no dia seguinte toma de novo. Eu não, fico com o Rivotril.
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
A barata do gabinete presidencial
Uma prima distante, lá de Brasília, certa vez me contou que a presidenta disse a um de seus ministros:
- Para matar uma barata tem que pisar com força. Dissimule o medo, pois a danada o identifica.
A prima me disse que a presidenta falava com sangue nos olhos. E, certamente, a barata era só uma figura. Ela se referia aos seus inimigos companheiros e não tão companheiros assim. Minha prima disse que gostaria de escrever umas memórias de Brasília, pois residiu por muitos anos no gabinete presidencial.
- Para matar uma barata tem que pisar com força. Dissimule o medo, pois a danada o identifica.
A prima me disse que a presidenta falava com sangue nos olhos. E, certamente, a barata era só uma figura. Ela se referia aos seus inimigos companheiros e não tão companheiros assim. Minha prima disse que gostaria de escrever umas memórias de Brasília, pois residiu por muitos anos no gabinete presidencial.
sábado, 2 de janeiro de 2016
Circuito Fechado do Medo
Medo:
Pés. Sandálias. Gritos. Correria. Pulos. Portas batendo. A mão de um bebê. Cachorro. Gato. Pássaros. Luz acesa. Straik Gel. Festa. Aposentos circulares. Paredes brancas. Telas. Vassoura. Mulher varrendo. Passeatas. Desfiles Militares. Crianças brincando de pique. Carros. Bicicletas. Velocípedes. Skates. Patins. Salto alto. Mulher. Homem. Pés...
Virá o dia que esse circuito será desfeito...
O Futuro da Humanidade
Não, não... Não é como Kafka nos vê que eu penso. Eu sei que já disse que Kafka é profeta, mas os profetas também se equivocam. Também não me comparo com Gregor. Gregor era algum idiota que se escondeu no quarto por ter feito alguma coisa bem pior e sentia vergonha. E Kafka não falava de baratas, mas de homens. Os homens que não se enquadravam à sociedade eram como insetos, esmagados por ela. Nós, baratas, desprezamos os homens. O homem está em extinção, mas, nós, as baratas, somos o futuro da humanidade.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Barata tonta
Certa vez entrei voando numa casa. Caí em cima de um vinil que girava numa vitrola. Girei tanto que fiquei tonta. Quando o medo foi passando comecei a curtir Neil Young. Fiquei ali, camuflada no Harvest Moon e na fumaça que subia por detrás de uma poltrona.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Escatologia
Todas as religiões têm uma escatologia. Não sei, creio que algumas, a maioria deve ter uma. Uma religião sem escatologia seria algo incompleto.
Papai sempre nos disse que numa guerra nuclear só sobreviveríamos nós. Nosso escaton. O fim do mal. Um mundo totalmente novo que viveríamos em plena paz e segurança. Sem predadores.
Confio mais na sabedoria do papai do que em cientistas. Cientistas sempre são contra escatologias. Não concordo com a opinião desse sujeito de que não somos resistentes à radiação.
Mantenho a fé.
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