quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
Barata tonta
Certa vez entrei voando numa casa. Caí em cima de um vinil que girava numa vitrola. Girei tanto que fiquei tonta. Quando o medo foi passando comecei a curtir Neil Young. Fiquei ali, camuflada no Harvest Moon e na fumaça que subia por detrás de uma poltrona.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Escatologia
Todas as religiões têm uma escatologia. Não sei, creio que algumas, a maioria deve ter uma. Uma religião sem escatologia seria algo incompleto.
Papai sempre nos disse que numa guerra nuclear só sobreviveríamos nós. Nosso escaton. O fim do mal. Um mundo totalmente novo que viveríamos em plena paz e segurança. Sem predadores.
Confio mais na sabedoria do papai do que em cientistas. Cientistas sempre são contra escatologias. Não concordo com a opinião desse sujeito de que não somos resistentes à radiação.
Mantenho a fé.
O voo da barata: entre a borboleta e os pássaros
Lembro quando papai nos ensinou a voar.
Ele dizia:
- Quando uma barata voa não é para encantar como uma borboleta ou para caçar como os pássaros. O voo da barata só tem o objetivo de assustar.
Lembro que sonhava voando com minhas amigas borboletas ou lutando contra meus predadores voadores. Era apenas sonho, jamais tive uma amiga borboleta e meu voo nem se compara aos voos dos pássaros.
Tinha um menino que cantava para uma amiga, chamada Leila, que tinha pavor de baratas voadoras. Papai era muito sábio. Descobri na prática que quando voamos somos mais monstruosas, causamos pavor, uma estratégia contra nossos predadores humanos.
Enfim, aprendi que nosso voo não tem beleza e nem destreza, mas apenas um último recurso para continuarmos vivas.
Ele dizia:
- Quando uma barata voa não é para encantar como uma borboleta ou para caçar como os pássaros. O voo da barata só tem o objetivo de assustar.
Lembro que sonhava voando com minhas amigas borboletas ou lutando contra meus predadores voadores. Era apenas sonho, jamais tive uma amiga borboleta e meu voo nem se compara aos voos dos pássaros.
Tinha um menino que cantava para uma amiga, chamada Leila, que tinha pavor de baratas voadoras. Papai era muito sábio. Descobri na prática que quando voamos somos mais monstruosas, causamos pavor, uma estratégia contra nossos predadores humanos.
Enfim, aprendi que nosso voo não tem beleza e nem destreza, mas apenas um último recurso para continuarmos vivas.
Anos 70
Nos anos 70, as mulheres sabiam como proceder. Hoje são umas estéricas e mal-amadas. Gostei muito desse filme e a primeira vez que o assisti foi quando entrei numa sinagoga em pleno Shabat.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
O dia em que travei um diálogo com um homem e como Kafka me salvou.
Já travei um diálogo com um homem, o pai de uma menina escandalosa.
Ela gritava como uma louca, dizia:
- Pai, uma barata enorme!
O sujeito chegou com uma havaianas emborrachada preta e muito ódio nos olhos.
Pedi que tivesse um tempo antes de concluir o homicídio. Surpresa, ele esperou. Talvez assombrado por ver uma barata enfrentá-lo.
Disse-lhe:
- A avaliação de sua filha está correta? Tenho as dimensões que ela imagina eu ter? O senhor já viu a quantidade de espaço que ocupo em seu banheiro? E já estava de saída, apenas esperava vocês dormirem e sair por onde entrei. Na maioria das vezes entramos em lugares que não queremos, nossas antenas são muito falhas.
Ele me olhou e viu certa lógica em meus argumentos. Gostou quando eu citei Kafka e teve dó quando contei dos pássaros. Interrogou-me sobre Kafka.
Disse-lhe:
- Li durante uma tarde quando me escondia em outra casa e desde então o escritor checo tinha virado meu herói.
Ele disse que o romantismo estava morrendo e era bonito saber que havia seres que apreciavam a boa literatura. Fizemos um trato, dei-lhe um pedaço de minha asa como prova de que havia matado a "enorme" barata e fugi apressada para casa.
Segui com o coração acelerado, enquanto os homens dormiam sossegadamente.
Ela gritava como uma louca, dizia:
- Pai, uma barata enorme!
O sujeito chegou com uma havaianas emborrachada preta e muito ódio nos olhos.
Pedi que tivesse um tempo antes de concluir o homicídio. Surpresa, ele esperou. Talvez assombrado por ver uma barata enfrentá-lo.
Disse-lhe:
- A avaliação de sua filha está correta? Tenho as dimensões que ela imagina eu ter? O senhor já viu a quantidade de espaço que ocupo em seu banheiro? E já estava de saída, apenas esperava vocês dormirem e sair por onde entrei. Na maioria das vezes entramos em lugares que não queremos, nossas antenas são muito falhas.
Ele me olhou e viu certa lógica em meus argumentos. Gostou quando eu citei Kafka e teve dó quando contei dos pássaros. Interrogou-me sobre Kafka.
Disse-lhe:
- Li durante uma tarde quando me escondia em outra casa e desde então o escritor checo tinha virado meu herói.
Ele disse que o romantismo estava morrendo e era bonito saber que havia seres que apreciavam a boa literatura. Fizemos um trato, dei-lhe um pedaço de minha asa como prova de que havia matado a "enorme" barata e fugi apressada para casa.
Segui com o coração acelerado, enquanto os homens dormiam sossegadamente.
Kafka, profeta.
Nasci em 1935. E a primeira edição de "A metamorfose" é de 1915.
Tenho oitenta anos e lembro como hoje quando me escondi atrás de um livro de capa dura de Kafka. Tive que esperar anoitecer e a família dormir para voltar para casa. Acabei lendo a história do homem-inseto. Jamais soubera que um homem virara inseto.
Desde esse dia, Kafka virou meu herói.
Nem mesmo as Escrituras têm uma mísera linha sobre nós, mas as aves sempre são retratadas como símbolo da paz, da liberdade, da graça divina.
Essas aves malditas que nos aterrorizam com seus voos e apetite cruel!
No entanto, tenho a minha escritura sagrada, "A metamorfose" e um profeta, Kafka.
Tenho oitenta anos e lembro como hoje quando me escondi atrás de um livro de capa dura de Kafka. Tive que esperar anoitecer e a família dormir para voltar para casa. Acabei lendo a história do homem-inseto. Jamais soubera que um homem virara inseto.
Desde esse dia, Kafka virou meu herói.
Nem mesmo as Escrituras têm uma mísera linha sobre nós, mas as aves sempre são retratadas como símbolo da paz, da liberdade, da graça divina.
Essas aves malditas que nos aterrorizam com seus voos e apetite cruel!
No entanto, tenho a minha escritura sagrada, "A metamorfose" e um profeta, Kafka.
Assinar:
Postagens (Atom)

